Desempenho acústico da laje nervurada
- Bruno Dias
- 16 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 25 de jan.
Existe um mito muito difundido no mercado da construção civil de que a laje nervurada não atende aos requisitos de desempenho acústico exigidos em norma. Esse argumento é repetido com frequência, mas raramente vem acompanhado de dados técnicos, laudos ou referências concretas de obras que realmente não atenderam aos critérios normativos.
Na prática, esse mito não nasce do sistema estrutural em si, mas sim de um problema recorrente de execução das vedações.
A origem real do problema
Diferentemente da laje maciça, a laje nervurada não é lisa na face inferior. Ela possui alvéolos formados entre as nervuras. E é exatamente nesse ponto que ocorre o erro.
Quando a alvenaria de vedação não sobe até o fundo do alvéolo, fica criado um vazio contínuo acima da parede. Em seguida, esse vazio é simplesmente fechado com forro de gesso. O resultado é previsível:
o som encontra um caminho livre para se propagar de um ambiente para o outro.
Nesse cenário, o som não está atravessando a laje. Ele está contornando a vedação, passando por um espaço que jamais deveria existir.
Onde a execução falha
O erro acontece quando, por facilidade ou pressa, a equipe de alvenaria:
• Sobe a parede apenas até a base da nervura
• Não fecha o alvéolo até o fundo da laje
• Deixa um espaço contínuo completamente aberto
Esse vazio funciona como um verdadeiro “duto acústico”, permitindo a transmissão sonora entre os ambientes.
Quando começam a surgir reclamações de usuários, o problema é rapidamente atribuído à laje nervurada — quando, na realidade, o erro está na falta de vedação adequada.

A laje nervurada atende às normas?
Uma pergunta simples ajuda a colocar esse tema em perspectiva:
Qual obra, comprovadamente, não atendeu às normas de desempenho acústico exclusivamente por utilizar laje nervurada?
Ao longo de mais de 15 anos de experiência, procurando referências reais, laudos técnicos e estudos de caso, não é comum encontrar uma obra que tenha falhado em desempenho acústico por causa da laje nervurada em si. O que se encontra são falhas de detalhamento e execução, especialmente na interface entre estrutura e vedação.
Projeto e execução caminham juntos
Assim como em qualquer sistema construtivo, o desempenho acústico da laje nervurada depende de três fatores fundamentais:
• Projeto bem detalhado
• Compatibilização entre estrutura e vedação
• Execução correta em obra
Quando a alvenaria é corretamente executada, subindo até o fundo do alvéolo e garantindo o fechamento completo, o sistema atende plenamente aos requisitos normativos.
Não existe sistema estrutural “milagroso” que compense uma execução mal feita.
Aumentar a espessura da laje não resolve o problema acústico
A ideia é simples — mais massa, menos som.
Na prática, porém, essa estratégia apresenta ganhos acústicos muito pequenos, ao custo de um aumento significativo de peso, consumo de material e sobrecarga estrutural.
O Eng. Dacio Carvalho publicou um artigo na edição do jornal TQSNews de março de 2015 sobre resultados dos ensaios acústicos que demonstram claramente essa relação desproporcional entre espessura e desempenho.

No ensaio comparativo, uma laje com 4 cm de espessura apresentou um nível de transmissão sonora da ordem de 94 decibéis.
Ao dobrar a espessura para 8 cm, houve uma redução para aproximadamente 83 decibéis. Apesar do aumento de 100% na espessura, a redução sonora foi da ordem de 11 decibéis, o que representa um ganho relativamente pequeno.
Quando a espessura foi elevada para 12 cm — 200% da espessura inicial — o nível caiu para cerca de 77 decibéis. Isso representa uma redução acumulada de aproximadamente 18%, ainda com um impacto estrutural significativo.
Em um cenário ainda mais extremo, com uma laje de 20 cm de espessura — um aumento de 400% em relação à laje inicial — o desempenho acústico chegou a cerca de 70 decibéis, o que corresponde a uma redução total em torno de 26%.
Muito peso para pouco ganho
Os números deixam claro que a relação custo-benefício é extremamente desfavorável. A cada incremento de espessura:
• O consumo de concreto cresce de forma expressiva
• O peso próprio da estrutura aumenta significativamente
• As cargas na fundação se elevam
• O ganho acústico se torna cada vez menor
Ou seja, sobrecarrega-se toda a estrutura — pilares, vigas e fundações — para obter uma compensação acústica limitada.
Conclusão
Esses resultados reforçam um ponto fundamental: o desempenho acústico não deve ser tratado apenas como um problema de massa estrutural.
Muito mais eficaz do que aumentar a espessura da laje é:
• Garantir a correta vedação das alvenarias
• Eliminar vazios e caminhos indiretos de propagação sonora
• Tratar corretamente as interfaces entre estrutura, vedação e forros
A acústica eficiente está muito mais ligada à execução correta dos detalhes construtivos do que ao simples aumento de concreto.
Se você está envolvido em projetos de construção, considere investir em ferramentas de análise estrutural e explore novas técnicas de otimização. A inovação é a chave para o sucesso no setor da construção.


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